No século XVIII Edmund Burke já disse, e hoje Eduardo Bueno repete, naquele comercial do History Channel:
Um povo que não conhece a própria história está fadado a repeti-la.
Boulevard du Temple - Daguerre
No século dezenove (1800 e guaraná com rolha) a fotografia estava surgindo, e de certa forma rivalizando com a pintura tradicional. Enquanto pintores procuravam ser precisos nos seus retratos, tentando serem o mais fiéis a realidade, desenvolvendo toda uma técnica, talento e experiência para tal, subitamente a invenção da fotografia torna possível registrar em papel uma imagem com todo o requinte de detalhes de uma cena, captada pelas lentes da câmera fotográfica. Este fato, claro, gerou conflitos entre os artistas tradicionais da época e os recém nascidos fotógrafos, como ilustra este texto do livro “A Fotografia Moderna no Brasil” (O grifo é meu):
A principal discussão sobre a fotografia oitocentista girou em torno da questão de ela ser ou não uma forma de expressão artística. Além da absoluta identidade entre a proposta estética da fotografia e o desenvolvimento da sociedade, a dificuldade em aceitá-la como arte residia também no seu caráter revolucionário. Primeiro por sua linguagem fria e direta e pela sua proposta de escrutação empírica da natureza. Segundo, pela democratização dos procedimentos técnicos e pela reprodutibilida-de infinita da imagem que permitiu o acesso de um grande número de pessoas à arte e ao fazer artístico. Essas duas características inovadoras não se adaptavam à concepção acadêmica de arte vigente na sociedade do século XIX.
Como o autor demonstra, um dos fatores que gerou a discussão entre os artistas da época foi a facilidade com que qualquer pessoa poderia reproduzir, com perfeição uma paisagem ou cena, que um pintor teria muito mais trabalho para fazer, e sem a mesma exatidão. Ainda hoje encontramos nas interwebz discussões acaloradas sobre a fotografia ser ou não uma arte, quase duzentos anos após isso ter começado, e sem chegar a nenhuma conclusão final e definitiva.
Porém, apesar de mais fácil que a pintura, a fotografia ainda era complicada. Não existia filme, as câmeras com seus foles enormes, exigiam tempos de exposição prolongados, manuseio e transporte eram complicados e a revelação e ampliação era feita totalmente de forma manual. Era preciso ter um bom conhecimento para se obter uma foto, além do alto preço dos equipamentos e insumos.
Mas o mundo dá voltas e em 1888 a Kodak lançou sua primeira câmera, com o famoso slogan ”Você aperta o botão e nós fazemos o resto”. Foi para os fotógrafos da época o que a fotografia tinha sido para os pintores de algumas décadas antes. Agora não havia mais necessidade de conhecimento nenhum para produzir uma imagem, bastava comprar, por 25 Clevelands uma máquina, que já vinha com filme para 100 cliques, e pronto, você já podia dizer que era um fotógrafo. Claro, isso provocou uma mudança na estética fotográfica da época, como podemos ler neste outro trecho do mesmo livro, novamente com meu grifo:
A solução encontrada pelos pictorialistas na busca de uma fotografia artística resultou em uma verdadeira imitação dos padrões da pintura do século xix: romantismo, naturalismo, realismo e impressionismo desfilavam, de forma algo patética, nos salões do mundo inteiro. Para levarem a cabo estas propostas estéticas eles utilizaram os processos de pigmentação controlada. Tais processos permitiam inúmeras intervenções na cópia fotográfica: uso de lápis, borracha e pincéis para a introdução ou supressão de elementos, retoques diversos, variação de tons etc. O uso dessas técnicas, de difícil aplicação, como o bromóleo, a goma bicromatada ou o processo a óleo, fazia com que o resultado raramente pudesse ser identificado como sendo uma fotografia. Na tentativa de elevar-se à categoria de arte a fotografia abdicava de sua própria identidade. A estratégia dos pictorialistas na afirmação da natureza artística da fotografia foi precisa. Forjaram uma estética que visava destruir o caráter revolucionário do seu meio de expressão. Por um lado, atacavam a sua referência direta à natureza, aquilo que acreditavam ser a cientificidade fria da imagem fotográfica. Através da intervenção na cópia, a fotografia perdia a sua ligação com um referente concreto e passava a evocar um lugar ideal, bem ao gosto do idealismo metafísico da arte romântica. Perdia também o caráter empírico da prática fotográfica do século XIX. Por outro lado, atacavam a democratização dos procedimentos técnicos e a reprodutibilidade infinita da imagem. O alto nível de sofisticação da técnica pictorialista tornava a prática fotográfica outra vez inacessível e, além disso, impossibilitava a reprodução das imagens, que ficavam confinadas a uma circulação muito restrita, totalmente elitizada.
A história se repetiu mais uma vez, dessa vez quem não gostou da facilidade e democratização do processo foram os próprios fotógrafos! E claro, houve um movimento para tentar inverter a situação. Criou-se uma série de técnicas de manipulação da imagem , com lápis, pincéis e borracha, os mesmos que usamos ainda hoje, travestidos de ícones no Photoshop. Essas técnicas não existiam apenas para dar uma outra identidade (irônicamente copiada da pintura) mas também para dificultar o acesso novamente a arte fotográfica.
Se hoje alguns mostram com orgulho seu equipamento pesado, cheio de acessórios, cabos, suportes e outras traquitanas e olhando para câmeras compactas como se fossem simplesmente um brinquedo, nos idos dessa época eu consigo até imaginar, uma cena hipotética de algum fotógrafo saindo de um quarto escuro, de pupilas dilatadas, cheirando aos químicos, dar de encontro com um colega segurando uma Kodak Brownie, olhando para a caixinha e soltando alguma frase arrogante do tipo Aprenda garoto, fotografia de verdade é assim.
Fazendo um pulo direto para 2011, é fácil encontrar por ai pessoas que defendam uma câmera, uma lente, um software, enfim, um processo, normalmente dos mais caros, como a única forma de se obter uma imagem com qualidade. Não é nem um pouco difícil achar fotógrafos diminuindo colegas por causa de um equipamento que não seja o supra sumo da tecnologia. No alto de suas pilhas de câmeras e afins, normalmente trazidos por caminhos obscuros às terras tupiniquins, olham com desdém para quem não dispõe, ou não quer gastar tanto dinheiro quanto ele. Esse papo, mais que batido, permeia listas de discussão, teoricamente especializadas em fotografia, onde chega-se ao absurdo de tentar definir qual marca de computador é usada pelos fotógrafos de verdade. Um claro ataque a democratização dos procedimentos técnicos, para tornar a fotografia elitizada.
Do outro lado, fabricantes de câmeras tentam repetir o feito de Eastman, facilitando ao máximo a busca pela imagem perfeita. O último exemplo dessa investida foi a Sony e sua NEX C3. Agora no lugar de “Aperte o botão, nós fazemos o resto” o recado é esse:
Em menos de três minutos, você começa a fazer fotos com qualidade profissional
Outra vez um ciclo se repetiu na história e as críticas (merecidas) à Sony borbulham nas redes sociais. A fórmula centenária de colocar tudo dentro de uma pequena caixa encontrou-se com a publicidade da era do consumo desenfreado e deu as mãos com os consumidores desinformados, que ao buscar por alguma resposta se deparam com muita facilidade com discussões sem fim sobre lentes, tipos de arquivos e marcas de câmera, o que só faz o comercial fazer mais sentido, afinal o a maior preocupação que a comunidade fotográfica demonstra é com o naipe de seus brinquedos.
Não será este o momento de dar uma virada, e passar a valorizar o resultado em vez do meio? Não seria a hora dos clubes, listas, fóruns e comunidades fotográficas passarem a discutir a estética da fotografia, sua história, sua linguagem, seus expoentes, sua mensagem, seu legado, em vez de concentrar-se nas velhas brigas entre X e Y? Deixar de lado essa obsessão de proclamar se A é melhor que B, se assim é melhor que assado, sem muitas vezes nem terem bem definido qual é esse conceito de melhor? Se desapegar do processo ou do aparelho e deixar de rotular se isso ou aquilo é mesmo fotografia ou só modinha hipster? Já pensou se a discussão fosse mais sobre o que faz uma foto ser melhor, do que qual máquina faz a melhor foto?
Quem sabe assim, conhecendo esse passado, nós possamos deixar que essa história pare de se repetir.





